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TRATAMENTO MENTAL. Prof. Henrique José de Souza ao livro Le Roi du Monde, de René Guénon

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*Excerto do comentário do Prof. Henrique José de Souza ao capítulo IV do livro Le Roi du Monde, de René Guénon, comentário publicado na revista Dhâranâ nº 21/22, julho 1962/junho 1963.

*Henrique José de Souza*

O Tratamento Mental é a arte de aplicar o conhecimento metafísico das Leis do Ser e da Natureza em direção aos movimentos automáticos e involuntários da alma inferior ou animal (KAMA-MANAS), também chamada de subconsciente, corpo astral. Foi a ciência da direção sistemática da vida humana que formou a base da Ciência da Antiga Magia.

O Tratamento Mental é diferente, quer do Magnetismo, como da Sugestão, do Hipnotismo, da Psicanálise etc., pois inclui na sua prática um fator metafísico de forma elevada: tal fator se baseia na União do Homem com o seu Criador, que é o mesmo objeto da Ioga oriental. Donde a tradicional frase sânscrita do Iogue no momento de entrar em transe ou Samádhi: Tat twan Asi (Eu sou Ele. Eu sou Brahmá, o Eterno Onisciente, Onipotente e Onipresente).

Estes três atributos não são aqui empregados arbitrariamente, pois correspondem às três emanações sucessivas do Infinito: o Pensamento (Manas), a Força (Jiva) e a Matéria (Prakriti).

O emprego do Magnetismo – tal como do Hipnotismo, da Sugestão e da Psicanálise – não necessita do estudo aprofundado da relação existente entre o Homem e Deus (a Unidade Imperecível donde tudo e todos procedem), enquanto o Tratamento Mental exige o indispensável conhecimento metafísico da parte puramente espiritual do homem, que também se poderia chamar de fisiologia oculta ou de hiperbiologia humana.

O Magnetismo limita-se, com efeito, a determinar, mecanicamente, por assim dizer, certos movimentos mais ou menos extraordinários do Fluído Vital enquanto a Sugestão age sobre o comando psicomental de nossos atos, conscientes ou inconscientes, sem se preocupar com os resultados que do mesmo se derivam.

Não queremos dizer com isto que na prática, esses três métodos de curar estejam isolados uns dos outros; porém, não é menos verdade que, teoricamente, eles são completamente distintos. O Tratamento Mental, pelo seu mecanismo de ação, exige, certamente, que se ponha em jogo a Autossugestão ou Ideação. A Sugestão, ou psicoterapia, concorre para os movimentos fluídicos que representam a mola principal do Magnetismo, mas com isto, seria absurdo querer confundir o Magnetismo com a Sugestão.

Uma das particularidades importantes do Tratamento Mental é sua maravilhosa influência contra todas as desarmonias que se dão no corpo humano, por isso mesmo concorrendo para uma cura perfeita.

A introdução do fator metafísico torna seu emprego particularmente eficaz, do mesmo modo que preventivo, de acordo com o que nos ensina o método de governar continuamente as forças ambientes, segundo as leis da Natureza, concorrendo para a Harmonia e, por conseguinte, para a saúde e a serenidade. E isto porque toda desarmonia, toda e qualquer doença não é senão uma contravenção às leis da Natureza, como dizia outrora Mesmer, em seu Aforismo 309: “Não há senão uma doença e, portanto, um só remédio. A perfeita harmonia de todos os nossos órgãos e de suas funções constitui a saúde. A doença não é mais do que uma aberração dessa harmonia. A cura consiste em restabelecer a harmonia perturbada etc.”

Ora, o estudo metafísico do Ser humano conduz precisamente a esse raciocínio, ou seja, que o homem é o resultado físico e biológico de uma série de manifestações vitais, hiperfísicas, todas elas governadas por influências do mais puro mentalismo.

É, pois, natural a captação e canalização da própria fonte da vida (que nós temos a veleidade de dizer que conhecemos) que é não só a base do Tratamento Mental, como de outros fenômenos, a que o vulgo denomina de “milagres”. Este é o único ponto em que a verdadeira Religião está de mãos dadas com a Ciência. Sim, porque ambas se confundem num só e precioso binômio: RELIGIÃO-SABEDORIA, que em verdade é Amor e Inteligência, ou Bhakti e Jñâna, como os dois caminhos da Vedanta. No meio se acha Karma, que é aquele por onde se agita a humanidade inteira.

É assim que, nos períodos de crise, onde todo o Ser foi absorvido por uma luta puramente defensiva, que sua aplicação é mais proveitosa, substituindo-se uma ação ofensiva por outra defensiva, e aproveitando a totalidade das forças humanas que, em caso de doença, são minoradas pelo enfraquecimento que disto resulta.

O Tratamento Mental não é mero tratamento médico, por não tratar apenas de doenças; é um tratamento filosófico: ele se dedica aos homens, quer em estado normal, como anormal, ensinando-lhes como devem melhorar e manter em si mesmos a Harmonia, isto é, a Saúde e a Serenidade, sob todos os seus aspectos.

SUBDIVISÕES DO TRATAMENTO MENTAL – Podem-se distinguir três graus no tratamento mental: o simples, o metafísico e o espiritual. O Tratamento Mental simples, que não é senão uma sugestão mental, telepática, cientificamente aplicada: o operador colocando-se num estado de recolhimento “trata” o seu paciente (esteja este presente ou não), por um método aperfeiçoado de transmissão de pensamento.

Desde a descoberta da telegrafia sem fio, que é uma analogia material perfeita da Telepatia, cessaram as controvérsias sobre o assunto. Hoje são poucos os que não acreditam na transmissibilidade do pensamento, que de resto vem constituindo motivo de atração em palcos e picadeiros e mesmo em reuniões familiares.

O segundo grau ou tratamento metafísico difere do precedente no que ele faz intervir explicitamente (e não mais implicitamente) a relação íntima do Homem com o seu Criador, por uma invocação formal e direta ao mesmo dirigida, porém em nosso imo. Se Ele nos fez à sua semelhança, é lógico supor que em nós reside, e que quando lhe dirigimos preces ou súplicas externamente, estamos separando, assim, o CRIADOR DA CRIATURA. A verdadeira oração ou prece é o recolhimento espiritual, a meditação em silêncio que possa conduzir ao total isolamento do mundo externo, resultando na união mística, que outra coisa não é senão o êxtase dos santos, em tudo idêntico ao samâdhi dos iogues. Donde se infere ser absurdo pedir ou pagar a terceiros para rezarem por nós… como se a Justiça Divina tivesse “procuradores” com poderes especiais para interpretá-la e distribuí-la entre os mortais (*).

Qualquer que seja o fim do tratamento, o operador expõe (mental ou oralmente, pouco importa) ao paciente as leis metafísicas da vida, concitando-o a entregar-se com a Fé mais inabalável possível à Fonte Suprema, que alimenta sem cessar a sua existência e a de todos os seres. Enfim, termina por uma espécie de invocação, de caráter eminentemente filosófico, ou seja, o de RELIGAR (ou tornar a unir, na razão do termo religião, RELIGIO, religar ou religare) direta e conscientemente – o doente ao seu Criador (ou Origem divina), segundo as leis da harmonia; porém, como foi dito, sentindo-O em seu próprio imo.

O terceiro grau, ou tratamento espiritual, difere dos dois anteriores, por se achar ainda fora do alcance da maioria dos homens, em vista de o operador se desligar inteiramente de qualquer ação pessoal sobre o seu “paciente”, colocando-se sob o poder do espírito, que é quem opera diretamente a cura – ou antes, realiza o fenômeno.

O tratamento espiritual implica, pois, a faculdade que tem o operador de se desligar completamente da sua natureza material, revestindo-se, momentaneamente, da faculdade espiritual por ele alcançada por meio de exercícios especiais durante algum tempo da sua vida.

Esses três graus ou processos de “tratamento” estão ligados aos exercícios de Ioga que, nas escrituras hindus se chamam Hatha-Yoga ou ciência do bem estar físico; Gñâna-Yoga (Jñâna, Djin ou Jina, alma, portanto, e não a falsa interpretação que a maioria dá ao referido termo), ou seja, a do preparo da alma (corpo emocional) para entrar em afinidade com o espírito (o Não Eu com o Eu, a alma inferior com a superior). Outro sentido não tem a passagem mitológica onde Psique (a alma) anda em busca do seu bem-amado (o Espírito), por não poder viver sem ele. Finalmente Râja-Yoga (Ioga-real, como seu nome o diz), ou a do desenvolvimento espiritual já agora, a união do Espírito, da Consciência Imortal, com a sua Origem.

Esses três métodos ou graus de desenvolvimento (dos três corpos de que se compõe o homem, segundo Plutarco e outros) estão em pleno acordo com os três caminhos da Vedanta: Jñâna, Bhakti e Karma.

(*) Leia-se, a propósito da verdadeira oração, a definição contida no Evangelho de S. Mateus, VI, vers. 6. O ocultista e o teósofo dirigem sua oração “a seu Pai que existe em segredo”, e não a um Deus extracósmico e, portanto finito: e esse “Pai” é “Deus” latente no homem; é a Tríade Suprema (Atmã, Búdi, Manas) à qual o Iniciado S. Paulo chamava exotericamente de “Cristo interno”. 

É fácil compreender pela enumeração precedente que esses três graus se fundem, insensivelmente, uns nos outros, segundo os diversos operadores, ou melhor, segundo o grau de desenvolvimento psíquico por ele alcançado, que tanto vale dizer, estados de evolução diferentes.

Reportando-se à escala que acabamos de enumerar, o último, que é o tratamento espiritual, que parece atributo de um Deus, antes que de um homem, na história está apontado na vida de diversos taumaturgos, dentre eles o Cristo. Da sugestão mental para a sugestão verbal não vai mais do que um passo, pois que, em verdade, é a esta que se chama de Hipnotismo, além de outros métodos empregados “para se obter o sono artificial”. Quanto ao Magnetismo propriamente dito, o operador age sobre o paciente em estado de vigília. Entre os seus diversos processos, figuram: o contato, a relação, os passes, o sopro (quente e frio etc.).

O sr.  P. P. Quimby é um dos mais notáveis personagens do psiquismo quase contemporâneo, e merece que se diga alguma coisa a seu respeito.

Trata-se de um americano de família humilde, nascido em 1802, em Lebanon, New Hampshire. Começou a vida como relojoeiro. Sugestionado pela ciência de Mesmer, tornou-se magnetizador-mesmerista. E, finalmente, depois de uma longa prática, tornou-se curador metafísico, segundo o método por ele criado, servindo-se de vários objetos por ele usados até o fim da sua vida. E isto, em diversas regiões da América. Sua morte se deu no ano de 1866, em Portland, no Estado de Maine.

Foi praticando o magnetismo curador de Mesmer, e com o auxílio da clarividência de um dos seus sujets (pacientes, passivos), Lucius Burkman, que ele se assenhoreou do campo ilimitado do Tratamento Mental. Dotado de espírito prático e metódico, dedicou-se a inumeráveis pesquisas para, finalmente, formular um sistema de sua própria descoberta, que, a bem dizer, foram seus discípulos que levaram adiante. Trata-se de um método estreitamente ligado à filosofia monística da Vedanta.

O famoso operador capacitou-se do poder ilimitado que todo homem possui sobre si mesmo, pelo emprego judicioso de suas faculdades mentais. Sua teoria principal é a de que “o doente acima de tudo representa um erro mental, que se torna mais tarde um efeito material. Que seja suprimido o erro mental original, e o efeito material, infalivelmente desaparecerá”.

Esta teoria tão simples quanto verdadeira, é a quintessência da filosofia de Quimby. Muito contribuiu para o êxito da sua carreira o fato de ter curado três personagens importantes os quais, depois de se verem livres dos males que os afligiam, fizeram grande propaganda da sua doutrina. Tais personagens foram: Madame Eddy, a fundadora da Christian Science, e M. M. Dresser e Evans, pioneiros do movimento filosófico conhecido atualmente sob o nome de New Thought.

Depois de apontarmos em linhas gerais, o que diz respeito aos métodos empregados no Tratamento Mental, e de fazermos também um pequeno histórico dos seus principais fundadores, passaremos às provas da sua eficácia, para que não se sujeite ao escárnio com que a maioria tem recebido tudo quanto diz respeito à Metafísica aplicada à vida material.

O Templo do Espírito, nosso corpo visível, é o resultado de tentativas multisseculares para a expressão da Vida, cada vez mais perfeita, na sua monumental estrutura.

Nós somos hoje aquilo que temos pensado, aquilo que mais poderosamente temos desejado em nossas vidas anteriores. E cada vez que a alma se reveste de um corpo visível, ela atrai para seu ambiente (ovo áurico) tudo quanto é mais próprio ou afim com as suas tendências e, portanto, capaz de ser fielmente reproduzido sob a aparência material.

Esta parte de nossa exposição, a bem dizer, é mais importante que a própria FÉ – esta Fé que transporta montanhas, segundo a sentença atribuída a Jesus: “como um grão de mostarda que és, dirás àquela montanha que se atire no mar, e ela se atirará” -, dizíamos, é uma condição sine qua non do sucesso em todo o Tratamento Mental. Pode-se mesmo dizer que o sucesso em semelhante Ciência se acha diretamente proporcional à Fé, que se soube inspirar para a sua eficácia.

Não é aqui, propriamente, lugar para se dar provas insofismáveis dessa imensa Verdade, que na opinião dos céticos outra coisa não tem sido senão a negação sistemática de algo ainda desconhecido da maioria, e que não deixa, no entanto, de comprovar a vaidade tola daqueles que, sem conhecimento de causa, pretendem demolir e esmagar, de um só golpe, as experiências que, a bem dizer, representam o próprio passado da evolução humana. Eis uma das muitas razões por que nem a todos se pode dar ensinamentos de natureza transcendente a menos que se queira incorrer naquela outra sentença iniciática atribuída ao mesmo Iluminado, e que é o “Margaritas ante porcos” (Não atireis pérolas aos porcos). Todo pensamento que se nega, ou que se leva para o ridículo, se desagrega no invisível, é solapado na base mesma da sua vitalidade; toda ideia que se afirma, que se acolhe de modo favorável, que é cultivada com carinho e dignidade, adquire uma vitalidade cada vez maior, suscetível, portanto, de realizar verdadeiros prodígios no mundo material.

Toda ideia, como disse muito bem Paul Emile Levy, encerra em si mesma um começo de realização; toda ideia é um começo de ação. Poderíamos acrescentar: um ato em estado nascente.

Mas o que o Dr. Levy não pôde trazer a lume com bastante vigor, é o quanto pode fazer a vontade humana, seja dar vida ou mesmo matar alguém (se se tratar de um criminoso ou antes, um “mago negro”); dar vida e forma aos seus próprios pensamentos, em resumo, realizar os chamados prodígios, que aliás não são outra coisa senão “fenômenos naturais”, por serem levados a efeito de acordo com as leis da Natureza.

A Fé, que é a afirmação superlativa por excelência, torna-se, pois, a base mesma de todo o Tratamento Mental.

Tal como os “milagres” de curas relatados na Bíblia, todos, sem exceção alguma, são operações desse gênero, pois, de uma forma ou de outra, nós os encontraremos no Tratamento Mental; a menos que se admitam “dois pesos e duas medidas”; quando realizados pelos adeptos da Igreja são milagres de santos por obra divina; se, porém, não pertence à Igreja, o autor desse milagre recebe o gracioso epíteto de agente do Demônio.

Caldeus, assírios, egípcios, gregos, romanos e outros povos antigos já praticavam os referidos métodos. Suas escrituras estão repletas de casos idênticos, além de outros até agora desconhecidos por parte daqueles que se orgulham de pertencer a um “século de luzes”…

Obras como A Magia entre os caldeus, de M. Lenormant, La Magie Assirienne, de M. Fossey, etc. não são mais do que uma coletânea de descrições dessa medicina psíquica, ora sob a forma de conjurações – que representam um método impressionante de sugestões – ora sob a forma de verdadeiras práticas magnéticas.

Os egípcios possuíam em seus templos, principalmente nos de Ísis e de Serápis, verdadeiros colégios de sacerdotes curadores que operavam, principalmente, de acordo com o método mental.

Aos gregos e aos romanos se deve o culto de Asclépios, ou Esculápio, que na sua origem consistia, principalmente, no rito curioso da incubação. Esta prática prescrevia aos doentes passar uma ou algumas noites no Templo do Deus curador, com a esperança de serem favorecidos com uma aparição ou sonho, capaz de lhes restituir a saúde.

Quando a religião cristã se espalhou pelo mundo, este poder de cura “miraculosa” tornou-se o apanágio dos “santos”, e na idade-média, encontramos quantos exemplos sejam necessários para a sua comprovação, nos milagres, por exemplo, dos Santos curadores, como foram Cosme e Damião, Terapon, Martin de Tours e tantos outros.

Na América, encontram-se atualmente milhões de indivíduos professando abertamente sua ilimitada confiança no Tratamento Mental, seja debaixo de um nome ou outro. Os dois principais ramos deste movimento filosófico, ao mesmo tempo religioso, representando um outro de maior envergadura, são conhecidos pelo nome de New Thought (Novo Pensamento) e Christian Science, este último sob a forma de seita protestante.

Tal seita é o desenvolvimento da doutrina de Quimby, grandemente desenvolvida, do ponto de vista místico, por Mrs. Eddy que, segundo dissemos, foi curada por aquele, em 1862, de uma grave doença histérica.

Durante seu tratamento, Mrs. Eddy (chamada então Mrs. Patterson) recolheu sob a forma de manuscrito  a doutrina de seu Mestre, e foram os princípios que lhe serviram de base quando, depois da morte daquele, ela quis, por sua vez, criar uma escola diferente.

A empresa só foi coroada de êxito depois de vinte anos de lutas e sacrifícios, ou seja, em 1880, quando começou a obter o enorme desenvolvimento alcançado até os nossos dias.

Atualmente, a Christian Science se acha espalhada pelo mundo inteiro; ela possui em Boston um Templo capaz de abrigar cinco mil pessoas, e publica além de revistas, três a quatro jornais, dentre eles um diário ilustrado.

Mesmo que a sua doutrina não deixe de estar sujeita a ataques em várias das suas partes, a base do seu ensinamento é tão sólida que muitos dos seus prosélitos continuam realizando verdadeiros “milagres”.

O New Thought, por sua vez, é um movimento da mais alta metafísica, e cujo caráter, como o precedente, não é propriamente religioso.

Filosoficamente falando, sua doutrina é impecável. Ela nunca possuiu, como a anterior, nenhum chefe. É antes a obra comum de uma plêiade de grandes pensadores e devotados filantropos.

M. Julius A. Dresser, outro doente curado por Quimby e que se fez seu discípulo, ocupou um dos mais importantes lugares na pregação dessa doutrina; ele foi condignamente secundado por seu filho, M. Horatio Dresser.

Em colaboração, o Pastor Warren F. Evans escreveu sobre o Tratamento Mental, em todos os seus ramos, um número importante de volumes. É a ele quer se deve o primeiro livro moderno sobre o assunto intitulado “A Cura Mental”, demonstrando a influência da mente sobre o corpo físico, tanto em estado normal como anormal, isto é, de saúde ou de doença, e dando um método psicológico de tratamento, publicado em Boston, em 1869. Entre outros nomes dos vulgarizadores da New Thought, figuram, ainda, os M. Henry Wood, Horace Fletcher – que se tornou célebre por sua teoria da mastigação prolongada dos alimentos; W. W. Atkinson, Leroy Berrier; senhoras Ela Woeler Wilcox, Elisabeth Towne e outras.

Um fato digno de atenção é que todas as seitas que se dedicam à cura mental, embora divergindo em alguns pontos, professam um mesmo dogma em relação ao Eterno: o da sua identificação com a própria criatura, o homem.

Seria preciso citar um por um os milhares de livros de origem anglo-americana, para provar o vultoso número de curas realizadas por semelhantes métodos. No entanto, nada mais fácil para quem desejar obter maiores informes, do que se dirigir às referidas escolas, ou mesmo às livrarias que possuem obras que tratam de um assunto de tão grande valor para a vida humana.

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Muito mais importante, se assim se pode dizer, do que ambas as seitas, é aquela dos Antonistas da qual nos vamos agora ocupar.

Os Antonistas são partidários da religião fundada por Louis Antoine, por alcunha o Curador, que residiu durante muito tempo em Jemepee-sur-Meuse, na província de Liège, na Bélgica, e onde operou centenas de “milagres”.

Os resultados obtidos por semelhante doutrina são incontestáveis, pois que milhares de testemunhos podem ser apresentados, a menos que se queira continuar a recusar todo e qualquer testemunho humano.

Antoine, “le Guerisseur”, pessoalmente, merece um lugar de destaque entre todos os curadores que se têm apresentado nestes dois últimos séculos. Ele soube verter o que de mais puro possui a ciência oriental, na ocidental, tornando-a, quanto possível, respeitada, no que se refere à sua parte prática. No que diz respeito à pureza de vida, ela se assemelha ao Budismo, isto é, renúncia aos bens materiais, alimentação puramente vegetariana, e vida exclusivamente consagrada aos seus semelhantes.

Direta ou indiretamente, foram e são seus mais fiéis seguidores, na América do Sul, por exemplo, o saudoso Comandante Astorga, e ainda em nosso dias J. Carbonell, cujas obras merecem o maior acatamento. Na Espanha, o nome que mais ressalta em matéria “naturismo” é o de nosso ilustre amigo Dr. Eduardo Alfonso, médico em cujos braços exalou o último suspiro, nosso pranteado Roso de Luna, do qual nos vamos ocupar nos comentários ao capítulo seguinte.

Assim é que as maravilhas realizadas pelo famoso Louis Antoine, “le Guerisseur”, atingem quase o impossível. Podemos mesmo dizer que no Ocidente não houve quem o ultrapassasse. Os processos por ele adotados muito se assemelhavam aos já por nós apontados em outros lugares, ou seja, os dos serapis, no Egito, e os dos templos de Asclépios, na Grécia. Ele agrupava os seus doentes formando uma cadeia mental, e depois, através de superior esforço da sua vontade, harmonizava a polaridade dos fluidos desse mesmo grupo por inteiro. Poucas vezes era necessário formar uma nova corrente; os doentes ficavam imediatamente curados.

Passemos, agora, à descrição sintética da doutrina e suas operações, tais como são geralmente praticadas.

RESUMO DO MODO OPERATÓRIO – Já dissemos que todos os curadores pelo processo do Tratamento Mental se apoiam em Dogma Único. Nem era necessário dizer que ele fosse recente: trata-se do que foi exposto pelo sábio hindu Vyasa (que outros confundem com Badaráyana), na sua Filosofia Vedanta, o mais sublime dos sistemas monísticos, e que data, provavelmente, de uns setecentos anos antes de nossa Era.

Este sistema professa que Deus, nosso Criador, é o único SER real e, por conseguinte, tudo mais não passa de ilusão dos sentidos (mâyâ), ou de Manifestação do grande Todo em aparente diversidade, porque ele mesmo sendo indivisível, não podia deixar de ser o Único.

E como somente o Grande Todo existe, segue-se, ainda, que tudo mais não pode ser, senão, diferentes ideias que dele formamos, ou antes, Ele mesmo sob múltiplas ideações, formas e aspectos diferentes.

Max Müller foi muito feliz em resumir esta filosofia, no que concerne ao homem, através de um pensamento que foi amplamente divulgado: “Brahma é verdade: o mundo é erro. A alma é Brahma e nada mais”.

O mentalista considera o Criador como Onisciente, Onipotente, Onipresente, isto é, como manifesto por sua TRINDADE, suas três emanações de Pensamento, Força e Matéria; o homem, sua criatura, como sendo um espírito imortal, feito da sua mesma natureza, momentaneamente provido de um corpo, e destinado, por essa sua mesma natureza, a governar os atos de seu corpo, tanto no visível como no invisível.

É incontestável, metafisicamente falando, que Deus, como Ser Único, seja eterno e incriado. De outra maneira se cairia numa espécie de politeísmo, que parece absurdo, embora para se manifestar tenha Ele que, cabalística e teosoficamente falando, tomar os aspectos numerais da sua essência, ao mesmo tempo Una e Trina, através do Setenário Divino. Donde se dizer que o número 137 é o mais cabalístico de todos os números. Sim, como a unidade (ou origem de todas as coisas), o ternário da sua manifestação, e o setenário da sua evolução.

O homem para ser imortal deve necessariamente participar da essência mesma de Deus, pois que só Ele existe. E como tal essência seja indivisível, por definição, segue-se que o homem – pelo fato mesmo de ser Homem – traz, em estado latente, toda a Divindade do seu próprio Criador. Há uma velha sentença oriental que diz: “Deuses fomos e nos temos esquecido”.

A palavra “homem”, no inglês “man”, provém de manas, manu (sânscrito), o pensamento, o pensador. E como tal é filho da mente universal, que representa o Poder da Vontade Divina.

Ele não é apenas o Filho, nem é distinto de seu Pai, mas idêntico à sua natureza, eterno e incriado como o Pai.

Insistimos: seu Pai e ele não formam, nem podem formar senão Um, pois que tudo fora deles é ilusão. “Eu e meu Pai somos Um”, afirmava Jesus.

O homem é como um raio desta luz infinita donde emana, e sem ser a própria fonte, não pode, entretanto, ser distinto dela.

A doutrina do Tratamento Mental apodera-se avidamente desta grande verdade: como O trazemos conosco como somos Ele próprio, basta Lhe fazermos o conveniente apelo, porém, em nosso próprio imo, apesar dos aparentes obstáculos da matéria grosseira que nos envolve, portanto, ilusórios, que d´Ele nos separam, ou antes, não nos permitem vê-Lo, para que a harmonia da criação tome seu curso primitivo, isto é, que a doença (que não é senão um estado mental e instável da desarmonia), seja forçosamente aniquilada, refluindo no Nada, que é a sua essência, do mesmo modo que uma sombra qualquer se dissipa instantaneamente logo que sobre ela a luz se projete.

Toda questão está, pois, em colocar-nos mentalmente nas condições requeridas, para que este apelo seja eficaz e nos livre tanto quanto possível de todos os liames que nos prendem à materialidade, sob todas as suas formas. Antes de tudo é preciso nos habituarmos a controlar e dirigir todos os nossos atos, tanto intelectuais como materiais. Consideramos, ainda, nossos desejos, nossas paixões, pelo que são realmente; afastar de nós os resíduos dos tempos decorridos de nossa evolução, onde a bem dizer, não éramos ainda homens, ligando-nos ao que hoje somos, mas desligando-nos, o mais rápido possível, de tudo quanto concorra para o atraso de nossa espiritual evolução.

Daí a necessidade imperiosa de desenvolver nossa própria cultura, tanto do ponto de vista espiritual como psíquico, com influência direta até na evolução física pessoal, sem o que iremos fatalmente formar naquela enorme maioria de homens guiados na vida unicamente por seus desejos, instintos e paixões, e por isso mesmo escravos do desequilíbrio, da desarmonia e do mal.

A importância da cultura física, isto é, da participação ativa de nossa inteligência na manutenção da harmonia em nosso corpo, jamais deve ser esquecida. A harmonia de um repercute infalivelmente no outro, e reciprocamente, de maneira que seria positivamente impossível querer viver harmoniosamente na vida, sem o concurso espiritual coletivo. Daí o maior de todos os Ideais, que é o da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção alguma.

O regime vegetariano é um dos mais poderosos elementos de desenvolvimento espiritual (deixando de parte a questão das intolerâncias por esse regime alimentar, que por si só exige um grosso volume para ser discutido tal como o merece), ou melhor, da emancipação mental do homem, pois a carne, no seu substrato, possui os perniciosos elementos da animalidade que, ingeridos continuadamente, não podem deixar de prejudicar o homem, quer física, quer psíquica, quer espiritualmente falando. Além de excitar naqueles que dela fazem uso, os desejos e as paixões materiais mais grosseiras, constituem entraves à livre manifestação do Ego através do intelecto, na formação dos pensamentos. Eis por que os homens são guiados na vida mais pelas emoções e paixões do que pelo Ego ou Espírito. Não são apenas as bebidas alcoólicas, o tabaco, os entorpecentes e tóxicos de qualquer espécie a contribuir para a degenerescência da espécie humana. Do ponto de vista patológico, o regime carnívoro – pior se exclusivo – provoca por sua vez sérios distúrbios, tais como o reumatismo, o artritismo geralmente relacionado às disfunções hepáticas, a apendicite, algumas doenças nervosas e circulatórias, e outras mais graves, incluindo mesmo certas formas de úlceras e tumores.

A alimentação e a respiração representam os dois fatores principais da manutenção da vida. Alimentos selecionados e ar puro, mais a higiene mental, nos asseguram o equilíbrio essencial à saúde do corpo e da alma.

Estas e outras condições seguidas à risca, nossa parte divina harmoniosa se firmará cada vez mais e nosso poder de serenidade e de saúde irá sempre aumentando, tanto em nosso benefício, como no daqueles que de nosso espiritual auxílio necessitem.

Volvendo à prática da cura mental, o operador em perfeito recolhimento, tanto quanto lhe permita o seu desenvolvimento psíquico, identifica-se com os princípios que acabamos de expor. Procurando transformar-se numa fonte viva dirige a onda vital que daí resulta, sobre aquele ou aqueles a quem deseja curar. A seguir ordena, com uma força irresistível, um poder de vontade inquebrantável, que é o poder da harmonia universal, a bem dizer, o mesmo que presidiu à Criação; ele a sente agindo no caso que está sob a sua guarda espiritual, identificando-se com o seu Criador, e uma vez realizada a imagem curadora, ele a projeta sobre aquele ou aqueles a quem deseja beneficiar.

Durante um momento muito rápido, ele se confunde, e portanto identifica-se com seu Criador; penetra o mistério do Infinito encarnado no homem, e entrevê, com imenso fulgor diante dos seus olhos, a grande Verdade, que a Lei da Evolução lhe reserva para mais tarde, o gozo eterno, o supremo gozo da imortalidade consciente.

O Tratamento Mental desta maneira compreendido identifica-se por completo com o desenvolvimento da natureza psíquica e espiritual do homem que, como se viu, não é mais possível separar. É antes um uso particular de faculdades, que atualmente nos parecem sobrenaturais como um processo qualquer que ainda estivéssemos longe de aprender, e muito menos de comunicar. Evidentemente, todos nós trazemos em nosso imo a Centelha Divina (que é a própria mônada), e somos, sem exceção, alguma perfeitamente iguais – pois que semelhantes ao Eterno, somos como a planta que começa a germinar, para depois crescer e florescer, diante de nossa própria evolução espiritual.

O Tratamento Mental confere, imediatamente, dois apreciáveis benefícios: o primeiro é o de nos fazer conhecer nossa natureza divina de modo prático, pairando acima de todas as contingências, e toda destruição possível, por sua própria essência, o que é para nós uma fonte preciosa de inquebrantável otimismo; o segundo, o de nos ensinar o caminho direto, tão infalível quanto necessário, que devemos seguir a fim de possuirmos a saúde e a serenidade. De fato, eles serão bem nossos quando compreendermos que deles jamais nos devemos separar.

CONCLUSÃO — Como se viu, o Tratamento Mental é coisa bem diversa de qualquer método de medicar (ou tratar) mais ou menos aperfeiçoado. Ele cura, é incontestável. E sobretudo quando todos os recursos conhecidos já foram empregados. Mas exige do operador um treinamento rigoroso e constante, para que ele mesmo não venha a adoecer por ter oferecido demais aquilo que, de certo modo, para si mesmo devia conservar: a vida. Sabemos de alguns que estão dentro desse triste caso, na razão do velho adágio popular de “quem dá o que tem a pedir vem”.

O Tratamento Mental também representa um método de regeneração social, que recomendamos a todos os homens dignos e ilustres, pois é a maneira mais prática de contribuir para a Evolução humana. Melhorar nossa raça segundo os preceitos eubióticos, espiritualizar a civilização que aflora neste continente privilegiado, colocar-se, enfim, ao lado da Lei que a tudo e a todos rege é dever de quantos, aturdidos pelos desastrosos efeitos de guerras e ódios destruidores entre membros da mesma Família, por serem nascidos de um Pai Comum ou da mesma Origem, desejam colocar-se à vanguarda daqueles que ainda esperam salvação – como se “raros náufragos nadando no vasto abismo”, da Eneida (Rari nantes in gurgite vasto), onde a mesma salvação não mais existe pelo fato de a matéria se ter afastado por completo do Espírito. O passado é como uma velha árvore que precisa ser rejuvenescida com uma seiva nova, cujos frutos sazonados possuem as privilegiadas qualidades de uma longa e proveitosa seleção, enquanto a sua assombrosa vitalidade procede de inesgotável manancial, para cuja existência muitos outros concorreram, pouco importa se consciente ou inconscientemente: o excelso Manancial da Obra grandiosa a cuja frente se acha a Sociedade Teosófica Brasileira [hoje Sociedade Brasileira de Eubiose], com o seu mais do que expressivo lema: Spes Messis In Semine: A esperança da colheita reside na Semente.

Do ponto de vista literário – como preciosas gemas que ornam o magnífico diadema de nossa Obra – já as apontamos em outros lugares deste mesmo trabalho: o Reverendo Padre Huc, através das três obras intituladas Dans le Thibet, Dans la Tartarie, Dans la Chine, que lhe custaram a expulsão tanto da Igreja como da Academia Francesa de Letras, por ter afirmado coisas que presenciou durante  a sua longa jornada através daquelas longínquas regiões asiáticas, viajando-as em companhia de um outro devotado sacerdote que foi o Padre Gabet. Suas obras contraditam as falsas doutrinas em que ambas se estribam. O escritor ocultista Saint Yves d’Alveydre, principalmente numa das mais valiosas das suas obras, que é   La Missión de l’Inde, falou pela primeira vez no nome de Agartha. Também se refere a ela o notável escritor polonês, professor da Escola de guerra de Varsóvia, Ferdinand Ossendowski, autor de várias obras científicas, filosóficas, de viagens, etc. sobressaindo, entre as últimas, uma que foi traduzida em quase todas as línguas, inclusive em português, Animais, Homens e Deuses. A bem dizer – e como deve o leitor ter compreendido através da leitura dos capítulos que a este precedem – foi tal obra que, ao lado da de Saint Yves d’Alveydre, inspirou o eminente francês René Guénon a escrever a que estamos traduzindo e comentando, Le Roi du Monde. A seguir, o grande místico da literatura oriental, Jean M. Rivière, principalmente em A L’Ombre des Monastères Thibètains, de cujos trechos próprios para os comentários do presente livro, nos servimos para criticar o prefaciador da supracitada obra, por suas afirmações francamente contraditórias.

Digno de destaque, também, é Nicholas Roerich, principalmente por seu livro El Corazón de Asia, que ainda hoje é lido com o carinho e o respeito que merece tão insigne escritor. Alexandra David-Neel é nome que sobressai dentre os escritores modernos de Ocultismo e Teosofia, além do mais, pelo tempo que esteve no Tibete, inclusive nos seus mais famosos mosteiros. Sua obra principal, Mistiques et Magiciens du Thibet, entusiasmou de tal modo o famoso polígrafo e Teósofo espanhol Dr. Mario Roso de Luna que o induziu a escrever, de parceria com Henrique José de Souza (que pelo falecimento do primeiro, redigiu os trinta últimos capítulos), a obra intitulada O Tibete e a Teosofia, publicada na íntegra (em 52 capítulos) neste órgão oficial [o autor se refere à revista Dhâranâ] da Sociedade Teosófica Brasileira [atual Sociedade Brasileira de Eubiose].

* * *

Em verdade, a respeito dos nomes Agartha e Rei do Mundo nada há mais a comentar ou refutar no livro que mais interesse nos despertou, por se referir a assuntos que em nossa Obra deixam de ser teóricos para passarem a práticos. Mesmo assim, como dever de ofício e maior preparação dessa mesma Obra, não só faremos os ligeiros comentários que este capítulo merece, como também mencionaremos passagens e personagens estreitamente ligadas ao nosso cultural e espiritual movimento.

Já tivemos ocasião de dizer que os nomes dos dois Ministros do Rei do Mundo, além do que existe de velado a respeito, são Mahima e Mahinga, mesmo porque os dois M M entrelaçados e invertidos fornecem um símbolo precioso, que interfere na jurisdição espiritual, digamos sem falar nos menores, que àqueles se acham subordinados, e que antes deveriam receber   o  nome de “postos representativos”.

René Guénon tem razão em criticar Ossendowski por escrever BRAHATMÂ, em vez de BRAHMATMÃ, mas erra, por sua vez, em chamar o mesmo de “Chefe Supremo da Agartha”. A verdade, porém, é que o referido nome pertence a um Ser de elevada hierarquia, cujo posto ou regência está situada ao Norte da Índia, em região secreta, mas que, em verdade, é uma espécie de Papa ou Sumo Pontífice, para certas religiões – principalmente o Brahmanismo – existente na Índia. Trata-se de uma série idêntica à dos Budas-Vivos da Mongólia, cuja série deixou de ter razão, depois que o Oriente cedeu o seu lugar de “espiritual comando”, ao Ocidente, no presente ciclo. Melhor dito, era uma síntese do mistério que se processava entre o Tibete e a Mongólia, ou seja, os referidos Budas-Vivos como representações do “Rei do Mundo” na face da Terra, e os Trachi-Lamas e Dalai-Lamas como Ministros ou Colunas Vivas, contrariamente ao que afirma René Guénon, ao dizer que “o Dalai-Lama realizando a santidade (ou a pura espiritualidade) de Buda, o Trashi-Lama realizando a ciência (não mágica,  como se lhe afigura, mas antes teúrgica) e o Bogdo-Kahn, representando a força material ou guerreira, etc.”

O autor deixou-se levar pelo que Ossendowski cita nos últimos capítulos da sua obra, apresentando o referido Ser como “deus encarnado na guerra”, e, naquela ocasião em luta contra o invasor. Mas esqueceu de ligar importância a que ele falava face a face com o próprio Buda, no Nirvana, e relatava aos seus marambas para que eles lhe explicassem, ou melhor, sabendo ele conscientemente o que acabava de ver e ouvir, fazia questão que seus discípulos interpretassem de acordo com seu verdadeiro significado. Esqueceu, ainda, que um dos lamas do Mosteiro de Narabanchi, narrando a Ossendowski a aparição do próprio Rei do Mundo, o mesmo autor “teve ocasião de ver uma sombra que fazia mover o espaldar da cadeira ou trono existente no santuário secreto do referido mosteiro”. Isto indica que o Rei do Mundo, dando preferência a uma aparição no referido lugar, em comunicação direta se achava com o Bogdo-Kahn, ao menos no que diz respeito à sua espiritual Origem. Além disso, para se falar corretamente da Agartha e do Rei do Mundo, mister se faz já ter ido à primeira, ou ter tido… qualquer entendimento com o segundo. Diante disto, não há como dizer: “Cesse tudo quanto a musa antiga canta, que outro valor mais alto de alevanta”.

E o assunto nos recorda outro ponto interessante do capítulo que estamos comentando, ou seja, quando o escritor faz alusão aos Três Reis Magos do Evangelho, e compara-os magnificamente com os “Três Chefes da Agartha”, referindo-se àqueles três apontados Seres Bogdo-Kahn, Dalai-Lama e Trachi-Lama, que em verdade são apenas representantes dos verdadeiros, ou seja, a Trindade Agartina. Que diria o autor se soubesse que Três Seres idênticos vieram ter diante do Chefe da Obra em que a S.T.B. [atual S.B.E.] está empenhada, e portadores, por sua vez, de três preciosas dádivas, quais sejam, um livro antigo, uma frasqueira contendo licor sagrado (ou ambrosia dos deuses) e o precioso Símbolo conhecido pelo nome de Chave de Púskara, o qual esteve em nosso Santuário durante sete anos, para ser reconduzido à AGARTHA pelo mesmo Chefe de tão Excelsa Obra ou Movimento? E que o Venerável Dalma Dorge, tesoureiro do palácio do Bogdo-Kahn (1), em Urga, a quem também se refere Ossendowski no seu maravilhoso livro (capítulo XL), acompanhado de outros dois seres, vieram ter à presença do Chefe do supracitado Movimento? E que prostrando-se por terra exclamaram: CHEN-RAZI! CHEN-RAZI! cujo significado, em nossa língua, é: Espírito Misericordioso da Montanha! Sim, MONTANHA, outrora no Oriente, mas hoje no Ocidente, na Meca brasileira, ou antes, “capital espiritual do Brasil”? Ninguém duvide! Os tempos esperados já chegaram.

OM MANI PADME HUM! OM TAT SAT! OM SANCTI, SANCTI, SANCTI! ADI-BUDHA VAHAM BUDHA!

  • O BOGDO-KAHN, que residia em Urga, capital da Mongólia, era venerado ao longo do Volga, na Sibéria, na Arábia, entre o Tigre e o Eufrates, na Indochina e nas margens do Oceano Índico. Tinha por nome e títulos hierárquicos os seguintes: S. S. Djebtsung Dambha Hutuktu Bogdo Gheghen, PONTÍFICE de Takure. Todo o passado histórico da Ásia, da Mongólia, do Pamir, da Mesopotâmia, da Pérsia e da China cercava o Deus vivo de Urga. (Nota do autor)

Texto: *Excerto do comentário do Prof. Henrique José de Souza ao capítulo IV do livro Le Roi du Monde, de René Guénon, comentário publicado na revista Dhâranâ nº 21/22, julho 1962/junho 1963.

Imagem: Pexels

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