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Tradição Primordial

por Antonio Castaño Ferreira

Todas as grandes tradições da humanidade fazem referências a uma época pré-histórica, pois antecede todo o conhecimento que possamos ter das civilizações, e que teria sido o ponto de partida do grande ciclo de vida denominado pelos hindus de Manvantara.

Neste período, seres de natureza altamente espiritual, teriam revelado aos homens uma doutrina de ordem metafísica, e que explicaria todo o mecanismo da manifestação cósmica. Esta tradição primordial, pertencendo, portanto, a um domínio de conhecimento transcendente, não poderia ser expressa pelas imagens mentais que nos são familiares, ou meras expressões verbais. A Revelação teria sido dada antes através de símbolos que constituem a verdadeira linguagem universal, cada um deles sendo a expressão, no universo, de certas verdades de âmbito metafísico.

Mas com o afastamento gradual da espiritualidade, houve também um atrofiamento gradativo de seus órgãos mais sutis de percepção – e o homem passou a necessitar de um método através do qual pudesse reconquistar suas faculdades perdidas, para novamente perceber a harmonia das esferas do conhecimento.

A tradição primordial, porém, embora cada vez maiores dificuldades oferecesse para a sua perfeita compreensão, perpetuar-se-ia através dos séculos e das civilizações. Encontramos assim na história de todos os povos, referências a um centro primitivo no qual esta doutrina superior foi pela primeira vez revelada ao mundo. A Índia que com o Yoga apresentou um dos mais completos métodos de reeducação interior, fala, na sua tradição, de Arghya-varsha ou Adi-varsha, a terra das libações ou a terra primordial, que deu origem aos Edens e Paraísos de todas as tradições.

Os persas falaram do Ayriana-Vaejo, a terra dos seus antepassados. Na tradição judaica encontra-se o Gan-Eden, no qual os deuses transmitiam familiarmente à humanidade primitiva, certas verdades cósmicas, veladas, com o decorrer dos séculos, nas alegorias iniciáticas. Esse centro original, denominado, em fontes mais puras, de Agartha, do qual teve conhecimento o escritor Saint-Yves d’Alveydre, seria na realidade o lugar onde foi mantida acesa a tocha da verdade primitiva.

A tradição primordial é a base na qual se assentam todas as grandes correntes místicas que ainda sobre-existem na terra, e foi ela que vicejou no grande ciclo conhecido em todas as épocas como a Idade de Ouro. Nesse período, os homens estariam ligados por laços muito mais sólidos que os de hoje, formavam verdadeiras organizações, com tarefas bem definidas, e viveriam longamente, pois possuíam organismos sadios e harmônicos. O conhecimento superior orientava todas as atividades dessa maravilhosa civilização. Foi ainda nessa era que apareceram os grandes legisladores, como o Manu Vaivasvata, na Índia, Hamurabi, na Babilônia e Menés, no Egito.

Nessa Idade de Ouro, reinaria a eterna Primavera, não havia pobreza e corrupção, os homens constituíam uma grande família que vivia na paz edênica.

O conhecimento supraindividual que era o apanágio dessa idade era o fundamento das ciências que dela decorriam, algumas das quais no decorrer dos diversos ciclos posteriores, assumiram um domínio individual, mas nunca deixaram de abeberar-se nas fontes originais. Constituem todas essas ciências que se nutrem da mesma seiva, as chamadas “ciências tradicionais” ou “ciências sagradas”, embora se possam subdividir de acordo com os vários campos a que se aplicam. Dizia Heródoto que os construtores das pirâmides começaram a edificá-las pelo vértice. Torna-se agora evidente que ele queria se referir a este conhecimento, representado pela pirâmide, cujo vértice é a realidade primordial. Toda a construção, portanto, para estar de acordo com a verdade, há de se iniciar pelo conhecimento desse vértice e não pelos conhecimentos que dele decorrem. As ciências que constituem a base da pirâmide tinham as suas teorias bem fundamentadas em realidades de ordem transcendental, não sendo constituídas apenas de observações e hipóteses humanas, baseadas em fatos mutáveis.

Nas ciências de hoje, ao contrário, pela observação e experimentação, cataloga-se uma série de fatos aos quais se busca uma explicação. Em seguida, por meio de métodos estatísticos e depois empíricos, procura-se verificar se a lei estatística tem fundamento. Origina-se assim uma hipótese que, dentro de certo tempo, vai ruir e ser substituída por outra que está de acordo com os últimos fatos observados. O homem está sempre correndo atrás de um fantasma que se desvanece quando ele pensa que o toca.

Os poetas foram talvez os que melhor compreenderam essa verdade primordial. Os latinos chamavam-nos de “vates”, aqueles que proclamavam os vaticínios, sendo capazes de prever acontecimentos que dormiam ainda num remoto futuro. Entre os celtas, muitos eram os poetas iniciados nas ciências mais profundas da tradição. Os povos nórdicos, através dos skáldas, perpetuaram muitos mistérios relacionados à cidade de Agartha.

Mas hoje, sem poetas que desvendem seus destinos, e afastados das leis que regiam os povos felizes da Idade de Ouro, os homens sofrerão cada vez mais, até que sejam restaurados os princípios áureos da prodigiosa tradição primordial.

Publicado originalmente em Dhâranâ nº 1 – outubro de 1951 – ano XXVI – págs. 5/6.

 

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